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Kombucha e a Política

Kombucha

Dona Marlene resolveu que queria emagrecer. Do alto de seus 87 quilos, viu no programa da Ana Maria Braga um tal esquema de um tipo de bebida que era igualzinha ao refri santo de cada dia, mas com uma diferença substancial: não engordava. Aliás, tudo que não engorda é beatificado nos programas para as donas de casa atualmente. A Marlene adorava uma coquinha bem frescola, mas tinha certeza de que – se trocasse a coca por esse ou essa kombucha – perderia, pelo menos, uns 15 quilos – que nem a Cida da Mercearia 13, que (depois da bariátrica) só tomava kombucha e emagreceu esse tantão.

Bem, quem compartilhou a muda com a Marlene foi a Preta, que – na verdade – se chamava Cida era caucasiana, tinha 49 anos e 4 quilos a menos por causa da bebida “que era um espetáculo, menina”! A Marlene estava com mais pressa do que com vontade de seguir instrução. Ela ainda lembra que ouviu alguém dizendo que tinha que guardar bem essa bebida, para não estragar. Foi o que ela fez: deixou na garrafa de vidro num lugar estratégico da cozinha. Ela sentia que já estava perdendo as medidas só de fazer aquilo ali. “Mais credo! Quero ver, daqui umas três semanas, posso até comprar aquela blusinha que tá para vender lá no Doidão!”

Bem no início da manhã, antes do programa da Ana Maria, Marlene já estava acordando quando ouviu um som de estouro bem perto do quarto. Pensou que fosse alguém na casa. O medo já lhe atacava a consciência até entreolhar e notar que nenhuma porta estava arrombada. Aí só sobrou a intrigante interrogação sobre o que poderia ter acontecido. Pé por pé, foi investigar.

Ao entrar na cozinha, não achou parede branca (ainda que a cor de suas paredes fosse um misto de bege com velhice). A bendita garrafa de kombucha havia explodido e fez da cozinha um quadro de Pollock. Marlene nem sabia quem era esse cara, mas poderia vender as paredes com uma assinatura dele para ganhar uma grana.

Meu Deus do céu! Ela disse com as mãos na boca e arrastando as palavras com o filtro da incredulidade! Eu nem sei por onde começar a limpar! Chamou a Preta para mostrar o que tinha acontecido!

– Olha, eu não sabia que isso explodia desse jeito. Mas pega um pano que eu ajudo a limpar!

As duas se meteram à limpeza: começaram pela primeira parede, depois a segunda, a terceira, a geladeira, o fogão, os cacos de vidro do chão etc. Até hoje, você acha um pouco de kombucha na casa da Marlene, embora ela e a Preta tenham feito um serviço digno de nota. Toda vez em que rola um almoço de família na casa da Marlene, o Chico sempre tira onda, dizendo que a Marlene precisava de uns 20 centímetros a mais para limpar tudo.

E que lição a Marlene nos dá sobre a política? Bem, vamos lá:

  • A cozinha da Marlene é o Brasil.
  • Kombucha explodida representa a imensa quantidade de problemas sociais.
  • A Preta representa a união de forças para um objetivo em comum.
  • O Chico é o imbecil que sempre vai reparar a parte negativa das ações.

Em suma: ninguém resolve um problema social sozinho, bem como não se consegue extirpá-lo por completo. Uma iniciativa política no âmbito brasileiro possui um grupo pequeno de Pretas e um grupo gigante de Chicos – todos prontos a dizer que não resolveu ou a maximizar a mancha no canto do teto, apenas para puxar um assunto. Só foi possível deixar a cozinha mais apresentável, porque alguém tomou a decisão de começar a limpar uma parede de cada vez. Então, em sua próxima discussão política sobre os problemas sociais do Brasil, pare de dizer “isso não resolve o problema” e tome alguma medida pequena para ajudar, ou cale a boca de uma vez para não bancar o Chico.

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Crônicas Jamilkianas

Gosto não se discute?

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Há um senso comum muito engraçado no Brasil que diz o seguinte: gosto não se discute. Sempre fiquei intrigado com essa frase. Ouvi-a, com efeito, diversas vezes em minha vida. Aliás, fora até uma lição aprendida pelas palavras de minha mãe.

O mais curioso a respeito disso é o seguinte: há um ramo da Filosofia chamado de Estética – que trata mais especificamente de um estudo regrado a respeito daquilo que consideramos belo e, em suma, o que consideramos bom. Em outras palavras, a Estética é um tipo de estudo a respeito do gosto, uma vez que se volta para aquilo que o ser pode considerar aprazível de alguma maneira. Platão falou sobre isso, Kant falou sobre isso, Hegel escreveu (e muito) sobre isso, Nietzsche e mais uma galera de respeito discutiu o assunto.

Mas, eis que chega o belo brasileiro – com o seu conhecimento profundamente superficial sobre o céu, a água e o ar – e resume toda a tradição estética em “gosto não se discute”. Ok, podemos jogar fora todos os livro, todas as lições, afinal está aí o supra sumo do conhecimento!

Quando eu lecionava Filosofia e, fortuitamente, entrava no assunto em questão, era muito comum ouvir dos alunos: “professor, não tem que ser só o que você acha bom”, “nosso gosto conta também”. Evidentemente que ele conta, mas qual o valor estético da coisa. Há um grande problema entre nós: falta de honestidade intelectual. Muita gente tem dificuldade imensa em aceitar que aquilo de que ela gosta é algo esteticamente inferior.

Vamos a um exemplo simples: você pode gostar muito de ler a saga “Crepúsculo”; pode dizer que se trata de uma obra aprazível, mas não pode – nem por um segundo dizer que se trata de uma obra superior ao livro “Grande Sertão: Veredas”. O valor estético dos dois textos jamais pode ser, sequer, aproximado. É falta de honestidade achar que a primeira obra possa fazer sombra para a segunda. Agora, não é falta de honestidade dizer: “tudo bem, trata-se de uma obra para adolescentes com algum conflito emocional, mas eu acho uma gracinha”.

Infelizmente, não é assim que as pessoas pensam. Elas tendem a aplicar todas as suas paixões para defender aquilo que representa sua capacidade intelectiva. O mesmo ocorre na música, nos filmes, no teatro, e em diversos outros pontos de demonstração da produção artística humana. Como eu disse, a falta de honestidade intelectual é o termômetro para essas discussões inflamadas que se descortinam nas redes sociais. Nem tudo que é artístico é bom; nem tudo que nós achamos bom é, de fato, bom. Você pode devorar um McDonalds com prazer imenso, nem por isso ele fará bem para a sua saúde.

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