Gosto não se discute?

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Há um senso comum muito engraçado no Brasil que diz o seguinte: gosto não se discute. Sempre fiquei intrigado com essa frase. Ouvi-a, com efeito, diversas vezes em minha vida. Aliás, fora até uma lição aprendida pelas palavras de minha mãe.

O mais curioso a respeito disso é o seguinte: há um ramo da Filosofia chamado de Estética – que trata mais especificamente de um estudo regrado a respeito daquilo que consideramos belo e, em suma, o que consideramos bom. Em outras palavras, a Estética é um tipo de estudo a respeito do gosto, uma vez que se volta para aquilo que o ser pode considerar aprazível de alguma maneira. Platão falou sobre isso, Kant falou sobre isso, Hegel escreveu (e muito) sobre isso, Nietzsche e mais uma galera de respeito discutiu o assunto.

Mas, eis que chega o belo brasileiro – com o seu conhecimento profundamente superficial sobre o céu, a água e o ar – e resume toda a tradição estética em “gosto não se discute”. Ok, podemos jogar fora todos os livro, todas as lições, afinal está aí o supra sumo do conhecimento!

Quando eu lecionava Filosofia e, fortuitamente, entrava no assunto em questão, era muito comum ouvir dos alunos: “professor, não tem que ser só o que você acha bom”, “nosso gosto conta também”. Evidentemente que ele conta, mas qual o valor estético da coisa. Há um grande problema entre nós: falta de honestidade intelectual. Muita gente tem dificuldade imensa em aceitar que aquilo de que ela gosta é algo esteticamente inferior.

Vamos a um exemplo simples: você pode gostar muito de ler a saga “Crepúsculo”; pode dizer que se trata de uma obra aprazível, mas não pode – nem por um segundo dizer que se trata de uma obra superior ao livro “Grande Sertão: Veredas”. O valor estético dos dois textos jamais pode ser, sequer, aproximado. É falta de honestidade achar que a primeira obra possa fazer sombra para a segunda. Agora, não é falta de honestidade dizer: “tudo bem, trata-se de uma obra para adolescentes com algum conflito emocional, mas eu acho uma gracinha”.

Infelizmente, não é assim que as pessoas pensam. Elas tendem a aplicar todas as suas paixões para defender aquilo que representa sua capacidade intelectiva. O mesmo ocorre na música, nos filmes, no teatro, e em diversos outros pontos de demonstração da produção artística humana. Como eu disse, a falta de honestidade intelectual é o termômetro para essas discussões inflamadas que se descortinam nas redes sociais. Nem tudo que é artístico é bom; nem tudo que nós achamos bom é, de fato, bom. Você pode devorar um McDonalds com prazer imenso, nem por isso ele fará bem para a sua saúde.

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