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Polarização Política e o “Homo Brutalis”

Quando eu escrevia minha dissertação de mestrado, fiz uma previsão catastrófica no texto, a qual veio – infelizmente – a se cumprir da pior maneira possível. Àquela época, eu escrevi que a nova forma de sociabilidade da humanidade privilegia a cultura da beligerância de tal forma que ela se reveste da roupagem de expressão legítima e, em última instância, como única expressão das paixões humanas.

Com isso, eu pretendia dizer que a cultura que privilegia o comportamento violento tem sido tão comemorada, tão repetida, tão deificada que o ser humano só conseguiria interagir na sociedade se fosse de uma forma violenta, física ou simbolicamente.

O caso ocorrido em Foz do Iguaçu, em que um cidadão foi assassinado por outro por motivação de divergência política expressa claramente essa dinâmica macabra que a sociedade tem ovacionado. Eu gostaria e propor uma reflexão sobre esse tema, levando em consideração duas figuras que – a meu ver – são fundamentais para compreendermos o caso: os atores e os peões.

Reputo a nomenclatura de “atores” àqueles indivíduos que – por força imagética ou institucional (às vezes, os dois) – têm o poder de influenciar os peões em uma situação de convulsão social. De maneira bastante clara, no Brasil, podemos pensar nas figuras de Jair Bolsonaro e de Lula. No caso americano, tivemos Donald Trump, por exemplo. Os “peões” são aqueles que ficam na linha de frente do combate, ou seja, aqueles que levam a cabo as ideias que lhes são inculcadas direta ou indiretamente.

A responsabilização que se faz sobre os peões é de natureza criminal e ocorre de maneira ostensiva: a força policial encontra o indivíduo e o submete ao devido processo legal, quando a justiça está disponível para fazê-lo. No entanto, a responsabilização dos atores se faz de maneira discursiva e bastante difusa. Os atores trabalham com a técnica de “dog whistle”: lenta e constantemente usam frases e insinuações que instigam seus peões a agirem conforme seus interesses e, quando interpelados a respeito de alguma atitude, desviam-se e dizem que nada têm a ver com a situação, reputando as ações à vontade singular dos peões.

No entanto, é evidente que os atores possuem gerência sobre a vontade dos peões. Eles precisam trazer para si a responsabilidade de dizer claramente, caso queiram garantir preceitos democráticos, que não se pode admitir o conflito interpessoal físico motivado por razões de divergência ideológica. No fim do dia, os atores apertam as mãos, enquanto os peões sangram no campo de batalha.

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Os ratos e o queijo

ratos

Certa feita, dois ratinhos encontraram um belo pedaço de gorgonzola dando sopa em um dos balcões da casa onde fizeram sua toca. O pedaço era bem grande e não seria necessário ficar saindo da toca para buscar outras coisas durante um bom tempo. Tudo de que necessitavam estava bem por ali. A coisa ficou tão legal, que o Alves (que avistara a peça de queijo) resolveu chamar um primo para passar um tempo ali. Beltroneu, o amigo (que ajudara a carregar a peça), sentiu-se no direito de trazer mãe e pai para provar da iguaria.

Foi só festa na extravagância do queijo durante a primeira semana: faziam pequenos anéis com a comida; jogavam para cima a fim de simular chuva de queijo ralado; Clóvis (o primo do Alves) fez até um bonezinho de queijo, que ostentava quando dava uma volta pelas galerias que há entre as casas. Vocês se enganam quando pensam que construímos casas e os ratos as invadem. Nós é que subimos paredes em volta das casas dos ratos. Tudo é dos ratos!

O Clóvis, um dia, voltou puto da cara, porque – no cruzamento entre a São Vicente e a Bastião Tavares – um filho de uma ratazana resolveu levar o seu bonezinho de queijo. Chegou, mostrou os dentes e mandou dar o boné se não quisesse morrer, safado! A inconformidade foi geral: como é que alguém resolveria tomar desse jeito aquilo por que ele lutou tanto para conseguir? O mundo estava virado! Ninguém mais pode sair na rua?

Dois dias depois, foi o colar – de queijo, obviamente – que Beltroneu deu para a mãe (Zilda) o objeto de desejo de um ratão que estava escorado perto do esgoto do Shopping Alberta Norte. Ele, forte e jovem, chegou a arrastar a dona Zilda por alguma distância antes de o colar se partir e o meliante enfiar tudo na boca.

– Rato é uma merda! – exclamava Miro (o marido de Zilda). É por isso que nunca vão ter nada esses safados! Não gostam de trabalhar! Esperam tudo de mão beijada, ou tomam de quem trabalhou para conseguir o pouco que tem. Eu não consigo acreditar! Tinha é que matar tudo, sem nem perguntar! Que praga que são esses ratos, porra!

A ideia estava na cabeça: precisamos defender o nosso queijo desses ratos pilantras que estão por aí! Vamos fazer o seguinte: a gente divide isso que está aqui na sala, para que cada um possa proteger o seu pedaço em um lugar diferente. Assim, mesmo que alguém tome a sua parte ou que você perca por causa do destino, ninguém vai passar muita necessidade.

– Perfeito! Vamos dividir! Ainda bem que você estudou! – essa frase foi do Cabelo (o primo do Alves).

– Bem, vamos começar a cortar! Como eu que achei esse queijo, essa metade maior aqui vou deixar comigo! – disse o Alves, puxando a pequena faca (que existe no universo dos ratos) para cortar o queijo.

– Opa, espere aí, meu nobre! Como é que o distinto amigo vai tomando essa decisão, onde está a igualdade aí? – isso foi o Beltroneu.

– Nós somos dois, precisamos de mais! – Zilda, sob o olhar de aprovação de Miro.

– Vão tudo tomar no cu! – exclamou o Cabelo, antes de cair de boca num pedação de queijo, deixando boa parte bem babada.

Daí pra frente, o discurso se acabou. Garras, dentes, sangue e queijo foi o que se viu por ali durante, talvez, uma meia-hora. Alves teria sobrevivido, não fosse o Mimi ouvir toda a algazarra e morder seu corpo, já cansado de tanta luta.

Depois de duas semanas, Nelson avista um belo pedaço de queijo, que dava sopa numa toca velha abandonada…

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Crônicas Jamilkianas, Uncategorized

Kombucha e a Política

Kombucha

Dona Marlene resolveu que queria emagrecer. Do alto de seus 87 quilos, viu no programa da Ana Maria Braga um tal esquema de um tipo de bebida que era igualzinha ao refri santo de cada dia, mas com uma diferença substancial: não engordava. Aliás, tudo que não engorda é beatificado nos programas para as donas de casa atualmente. A Marlene adorava uma coquinha bem frescola, mas tinha certeza de que – se trocasse a coca por esse ou essa kombucha – perderia, pelo menos, uns 15 quilos – que nem a Cida da Mercearia 13, que (depois da bariátrica) só tomava kombucha e emagreceu esse tantão.

Bem, quem compartilhou a muda com a Marlene foi a Preta, que – na verdade – se chamava Cida era caucasiana, tinha 49 anos e 4 quilos a menos por causa da bebida “que era um espetáculo, menina”! A Marlene estava com mais pressa do que com vontade de seguir instrução. Ela ainda lembra que ouviu alguém dizendo que tinha que guardar bem essa bebida, para não estragar. Foi o que ela fez: deixou na garrafa de vidro num lugar estratégico da cozinha. Ela sentia que já estava perdendo as medidas só de fazer aquilo ali. “Mais credo! Quero ver, daqui umas três semanas, posso até comprar aquela blusinha que tá para vender lá no Doidão!”

Bem no início da manhã, antes do programa da Ana Maria, Marlene já estava acordando quando ouviu um som de estouro bem perto do quarto. Pensou que fosse alguém na casa. O medo já lhe atacava a consciência até entreolhar e notar que nenhuma porta estava arrombada. Aí só sobrou a intrigante interrogação sobre o que poderia ter acontecido. Pé por pé, foi investigar.

Ao entrar na cozinha, não achou parede branca (ainda que a cor de suas paredes fosse um misto de bege com velhice). A bendita garrafa de kombucha havia explodido e fez da cozinha um quadro de Pollock. Marlene nem sabia quem era esse cara, mas poderia vender as paredes com uma assinatura dele para ganhar uma grana.

Meu Deus do céu! Ela disse com as mãos na boca e arrastando as palavras com o filtro da incredulidade! Eu nem sei por onde começar a limpar! Chamou a Preta para mostrar o que tinha acontecido!

– Olha, eu não sabia que isso explodia desse jeito. Mas pega um pano que eu ajudo a limpar!

As duas se meteram à limpeza: começaram pela primeira parede, depois a segunda, a terceira, a geladeira, o fogão, os cacos de vidro do chão etc. Até hoje, você acha um pouco de kombucha na casa da Marlene, embora ela e a Preta tenham feito um serviço digno de nota. Toda vez em que rola um almoço de família na casa da Marlene, o Chico sempre tira onda, dizendo que a Marlene precisava de uns 20 centímetros a mais para limpar tudo.

E que lição a Marlene nos dá sobre a política? Bem, vamos lá:

  • A cozinha da Marlene é o Brasil.
  • Kombucha explodida representa a imensa quantidade de problemas sociais.
  • A Preta representa a união de forças para um objetivo em comum.
  • O Chico é o imbecil que sempre vai reparar a parte negativa das ações.

Em suma: ninguém resolve um problema social sozinho, bem como não se consegue extirpá-lo por completo. Uma iniciativa política no âmbito brasileiro possui um grupo pequeno de Pretas e um grupo gigante de Chicos – todos prontos a dizer que não resolveu ou a maximizar a mancha no canto do teto, apenas para puxar um assunto. Só foi possível deixar a cozinha mais apresentável, porque alguém tomou a decisão de começar a limpar uma parede de cada vez. Então, em sua próxima discussão política sobre os problemas sociais do Brasil, pare de dizer “isso não resolve o problema” e tome alguma medida pequena para ajudar, ou cale a boca de uma vez para não bancar o Chico.

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Crônicas Jamilkianas

Esquerda X Direita: que droga!

 esqdir

Meus amigos, vamos aprender uma coisa aqui: os senhores precisam ter cuidado com a sectarização das opiniões. Hoje existe uma polarização do pensamento que divide esquerda e direita no Brasil. Vejam bem: eu não me considero de esquerda nem de direita, mas não concordo com o que o populacho fala a respeito daquilo que ouviu falar ou leu em algum post do Facebook sobre a esquerda ou sobre a direita. Há INÚMERAS falhas no pensamento da esquerda, bem como há INÚMERAS falhas no pensamento da direita.

O problema não está necessariamente nas IDEIAS, mas nos HOMENS QUE EXECUTAM AS IDEIAS. A falibilidade do ser humano prejudica a interpretação, obnubila a visão e não permite extrair um caminho ético do meio-termo entre as duas posições político-ideológicas. Se houvesse a possiblidade de conjugar o rigor econômico da direita liberal com a visão social da esquerda libertária, teríamos um caminho belo pela frente. Mas isso significaria a criação de uma ética de centro que – ao longo do tempo – seria deturpada pela ambição individual. Isso acontece porque vivemos em uma sociedade de indivíduos que vivem juntos, mas se pensam separados.

Cada um defende o horizonte que consegue enxergar, sem tentar calçar os sapatos alheios. No meu vídeo sobre macrocrime e microcrime, tento explicar que todos lutamos a mesma luta, só que por caminhos diferentes. Não é bem a mesma coisa com visão ideológica: para eu fazer valer a minha, preciso destruir a sua. Hoje essas armas são baixas, geram especulações, mentiras e posições questionáveis dentro do corpo social. O espaço para o debate está se fechando no Brasil, para dar lugar ao espaço para a guerra ideológica.

Precisamos discutir ideologia de gênero? Não! Precisamos discutir respeito às diferenças. Precisamos discutir liberação do aborto? Não. Precisamos discutir os dispositivos que o impediriam no caso de um estupro. Precisamos discutir vitimização do criminoso? Não. Precisamos discutir o direito penal brasileiro. Precisamos discutir a liberação das drogas? Não. Precisamos discutir o combate ao tráfico (que nada mais é do que enxugar gelo hoje). Mas nunca chegaremos às discussões, pois estamos com os ouvidos bem cheios das nossas certezas, que embotaram o nosso pensamento e nos impediram de aprender a olhar com alteridade.

Enfim, todo mundo tem a solução para os problemas sociais dentro do bolso das próprias ideias, mas não somos capazes de resolver porcaria nenhuma, porque somos gananciosos demais para somar em vez de dividir.

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