Crônicas Jamilkianas

Sim da Renner

Thumbs up & down buttons

Minha esposa me ensinou, depois de algum tempo, o significado de “sim da Renner”. Evidentemente, saíamos da famigerada loja de departamentos quando fomos abordados por uma das garotas que me perguntou de maneira bem mecanizada:

– Você tem o cartão da Renner?

No momento em que fui responder negativamente ao simples questionamento, ela (minha esposa) interrompeu e disse:

– Sim, temos.

Era mentira, claro. Mas fiquei cismado pelo fato de ela mandar tão reta frase sobre o “benefício”. Eu perguntei para ela:

– Bárbara, você tem esse cartão? Eu não sabia.

– Claro que não! – disse ela – Mas, se você disser que não tem, ela vai ficar enchendo o seu saco até você fazer o cadastro.

– Olha, eu nunca pensei em fazer isso.

– Sempre que alguém vem desse jeito, eu mando um “sim da Renner” e acabo com a conversa.

Ela jamais faria isso por mal, eu tenho certeza. Quem nunca ficou puto com uma interpelação chata sobre as vantagens de um cartão “feito por você”? Quem nunca quis desligar o telefone antes de a menina falar sobre a economia que você vai fazer se aderir ao plano de telefonia com televisão a cabo e diversas vantagens que fazem café, criam seus filhos e rebocam a parede?

Comecei a pensar, depois disso, que – em diversas vezes do nosso dia – mandamos um “sim da Renner” para acabar com aquilo que nos parece tão enfadonho. O telefonema da mãe para saber como estamos, a oferta de novos produtos, a oferta de novos amores, a oferta de novas vidas, a oferta de novos horizontes, a oferta de um novo canal, a oferta de uma nova música (por mais ridícula que seja), tudo recebe nosso “sim da Renner”. Quem sabe a vida não seja uma loja de departamentos? Quando somos clientes e quando somos as moça mecanizada?

– Você já viu aquele vídeo em que o cara…

– Sim.

– Você já leu aquele livro, cujo personagem…

– Sim.

– Você me  ama?

– Sim.

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Crônicas Jamilkianas

Coragem virtual

croissant

Não é muito engraçado como as pessoas adquirem uma coragem fantástica quando estão atrás de um computador, de um celular ou de um tablet? Eu acho isso, no mínimo, curioso. Não raro, estou escrevendo um texto, comentando uma foto, avaliando um vídeo, paro para ver o que as outras pessoas escrevem a respeito daquilo que acabaram de ver.

E esse texto começa desse jeito mesmo, contanto o ocorrido com Atena. O nome dela nem era Atena, mas ela colocou isso no seu apelido, porque a Internet (sim, é com letra maiúscula) deixa fazer esse tipo de coisa. Colocar um nome qualquer para parecer cult ou chique. É foda! É foda, mas é real.

A Atena Tupinambá (queria fazer uma mescla entre coisa grega erudita e coisa de raiz brasileira) sempre passava pelas redes sociais, fazendo o seu julgamento de mérito do caráter das pessoas, colocando suas opiniões, desmontando teorias sem conhecer qualquer pessoa, credo, posição, formação ou caráter. Pensava “se eu não concordo com isso, está errado”!

Um dia ela parou para comentar um vídeo que havia visto sobre um assunto que vira polêmica do dia para a noite – como tudo no Brasil. Era um vídeo de uma menina falando sobre determinado assunto que havia pesquisado e estava lá também emitindo sua opinião. Nossa protagonista, no mais alto estrado cultural, não concordava com a opinião da garota (que, agora convencionamos chamar youtuber – nome que de chique tem muito e de conteúdo tem pouco).

Com fúria salivar nos dedos, Atena redigiu seu comentário abaixo do vídeo:

– PQP, que menina burra! É mesmo uma anta. Nem sabe do assunto que tá falando. Essas retarda fica comentando umas coisa que nem faz sentido. Eu até tô rindo aqui. Vai estudar, minha filha, antes de sair falando tanta merda!

Assim que deu o “enviar” do seu comentário, pensou que estava cansada de gente burra e de Internet naquele dia. Foi comer um croissant na franquia que havia no centro.

Atena não era qualquer pessoa para pedir uma massa folheada com recheio trivial de queijo com frango. Mais credo! Logo mandou aquele croissant nervoso de rúcula com tomate seco, brie e especiarias. Após a primeira bocada na iguaria, uma bandeja de plástico surgiu como um aríete direto nos dentes!

– Vai aprender a ficar falando merda dos outros, sua filha da puta! Isso aqui é para você aprender!

A informação viaja rapidamente.

(Pablo Jamilk)

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Crônicas Jamilkianas

Ela nunca foi amada…

Durante a adolescência, ela sempre foi a menina mais bonita da escola. Não havia mesmo alguém para competir com toda aquela beleza estonteante que ela esbanjava em seus 15 anos. Aliás, a festa que comemorava esse natalício mais parecia uma celebração de Oscar, com direito a tapete vermelho e tudo mais.

Mesmo naquela época em que as pessoas não eram viciadas em corpos torneados e barrigas trincadas, chapadas ou chupadas, ela já fazia seus treinos diários, para alimentar uma compleição física invejável que, de fato, tinha. Corrida, alguns abdominais, alguns alongamentos já faziam parte de sua rotina desde cedo.

Algo como quatro ou cinco amigas era o  número com que podia contar, se levasse em consideração quem a acompanhava durante as transições da adolescência para a juventude. Não sabia se havia alguma confidente, a maioria era apenas uma companhia para ir à escola ou a alguma festinha que se descortinava nos fins de semana.

O caso mais curioso, a meu ver, é que ela nunca foi amada. Pois é, não parece estranho? A mais bela, a mais fantásticas das garotas nunca ter sido amada. No alto de seus 45 anos, ela descobriu isso. Nunca havia sido amada. Questionava-se a razão. Chegou a cogitar loucura própria, mas não era. Realmente, nunca havia sido algo de um amor.

Você talvez pense que não faça sentido isso que está lendo. Como isso é possível? Ela sempre teve todos os rapazes aos seus pés, todos eles eram vidrados na menina. Matariam – certamente matariam – para poder acariciar aqueles cabelos dourados, olhar para os fantásticos olhos verde-felicidade, tocar os lábios pequenos e brilhantes. Tudo sempre foi muito fácil para ela: estalava os dedos, e os garotos, os marmanjos entregavam o que tivessem nas mãos para lhe agradar.

Não foi diferente quando ficou adulta: flores, perfumes, vestidos, sapatos, carros, casas, até aviões lhe foram oferecidos para que entregasse um pouco de si para o candidato sortudo. Todos desejavam, todos a queriam, todos admiravam suas formas sinuosas, seu semblante de menina, sua pele macia e jovial, seu hálito fresco de menta selvagem!

Aos 45 anos, olhando-se no espelho da academia, ela descobriu que nunca foi amada.

(Pablo Jamilk)

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