Poemas

E você ainda crê?

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E você ainda crê?

Todos os conflitos
Todos os miseráveis
Todos os aflitos
Todos os imperdoáveis
E você ainda crê que carrega o maior fardo?

Seus olhos miram um horizonte estreito
Será que consegue ampliar a visão
Para sentir a dor de um irmão
Dor que não caberia em seu peito?

Os homens não são iguais
Mas você prefere emparelhá-los
Com seus sentidos aparelhados
Para não poder se apiedar mais.

Resolve a fome com a ponta dos dedos
Acaba com as epidemias clicando num coração
E ainda crê que não há solução
Para por fim aos seus medos?

Divaga em palavras vazias
Sem saber que, em salas frias,
Padecem sem consolo algum

Pessoas como eu ou você
Que não verão o sol nascer
E hão de cair numa vala comum.

Todos os conflitos
Todos os miseráveis
Todos os aflitos
Todos os imperdoáveis
E você ainda crê que carrega o maior fardo?

(Pablo Jamilk, em “Poesia vingativa”)

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Poemas

A morte do poeta

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A morte do poeta

Morre um poeta por dia no Brasil.
A cada post,
A cada like,
A cada youtuber,
A cada livro facilitado.

A vida não é facilitada.
A vida é perigo e desafio.
É o poema que nos dá uma escada,
Para escaparmos do trânsito.

Somos uma raça rara,
Um bando de amigos
Unidos agora pela camaradagem da moléstia.
Mas a união é estéril.

O turbilhão passa rapidamente,
E os poetas não se agarram.
Seus textos se agarram.
O milagre do poema está se acabando.
Pela descrença de nossa alma prática contemporânea.

(Pablo Jamilk)

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Composição

Composição

De zero até uns setenta anos,
Passamos compondo versos.
Alguns sem métrica
Outros sem rima
Tantos sem sentido.
Às vezes insistimos em usar
A mesma palavra 
Quebrantada de outras estrofes.
Os anos iniciais passam vibrantes
Como uma oitava-rima.
A jovialidade dança nos versos livres
Nos dísticos do coração.
Envelhecemos no passo de uma redondilha maior.
Nem tudo escrevi sozinho.
Os mais belos versos da minha composição
Foram escritos quando a pena estava em sua mão! 
(Pablo Jamilk) 
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