Crônicas Jamilkianas

Fuja da preguiça!

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O caminho dos preguiçosos é cheio de obstáculos, ao passo que o do diligente não tem quaisquer embaraços.

Benjamin Franklin

            Quem não consegue dirigir o espírito à prática da diligência sempre acaba sofrendo por não atingir aquilo a que se dispôs algum dia. Não que todos sejam obrigados a buscar sucesso ou felicidade, mas o fato é que, comumente, nos deparamos com pessoas que olham tanto para aquilo que não conseguiram atingir e praguejam, em busca de um culpado.

A responsabilidade por todos os nossos atos é exclusivamente nossa. Jean-Paul Sarte pode ser interpretado dessa forma: primeiramente, é preciso existir; depois é que se descobre qual é a essência de nossa existência. A pessoa que interrompe sua vida por causa da lassidão (da preguiça, em bom português) vê sua vida repleta de problemas e de dificuldades, que surgiram justamente pela displicência com que tratou aquilo que deveria ter sido feito ou ajustado.

Note que o indivíduo que se volta a fazer poucas coisas consegue finalizar tudo, ou quase tudo, com um sorriso no rosto, porque entendeu que o caminho é justamente estar sempre em movimento, sem pensar em um fim ou um começo. Assumir a responsabilidade pelos obstáculos muito se relaciona com abandonar o posto de vítima das contingências e levantar a bandeira do protagonismo.

 

Pablo Jamilk

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Segredos, ofensas e tempo

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As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.

Benjamin Franklin

 

            Parece que a genialidade de Franklin não encontra limites. Esse aforismo que motiva a reflexão é a mais pura prova disso. Quantas vezes um segredo fez seu dia mais difícil? Quantas vezes uma ofensa soou para você como uma agulha na alma? Quantas vezes você perdeu seus momentos em nome de algo que nem sabia se valia a pena?

            Essas perguntas martelam na cabeça de quem tem dificuldade de aceitar as decisões tomadas em algum momento da vida. Talvez porque tenhamos um impulso natural a fazermos as coisas com uma reflexão, de certo modo, incompetente: deitamos fora segredos que nos são confiados por amigos, como se os amigos valessem menos do que os segredos. Sentimo-nos devassados quando alguém expõe alquilo que nos era íntimo para outrem, entretanto não parecemos criar muita cerimônia quando nós somos os anunciadores do caos alheio.

            Perdoar não está entre as nossas capacidades mais desenvolvidas, creio que a razão esteja muito relacionada à nossa idolatria particular, ou seja, somos tão ridículos a ponto de nos colocarmos em um pedestal, de tal modo que ninguém pode ofender nosso culto pessoal. É interessante agimos com amargura, e como essa mesma amargura fica pesada em nossos corações. O poder de autocrítica para descobrir o caminho do perdão passa pela aceitação de que podemos falhas e de que os demais também são falíveis.

            Tempo é algo que nos é caro, escasso e mal aproveitado. Isso acontece porque nossa ingerência nos empurra para desperdiçar nosso tempo com atividades ou preocupações que, na realidade, não deveriam receber qualquer atenção. Aproveitar o tempo é uma questão de perspectiva, bem como o próprio tempo. Nossa consciência cronológica é moldada pela ocasião: podemos viver uma hora em um minuto, bem como um ano em trinta segundos, isso depende de como lidamos com nossas atividades. A frieza do relógio nunca traduzirá o calor dos sentimentos.

 

Pablo Jamilk

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SOBRE RESPEITO E CONHECIMENTO

R-E-V-O-L-T-A-N-T-E
 
Desde que eu ingressei no curso de Letras, há mais de uma década, ouvi falar de alguns petardos que representavam o mais elevado conhecimento que poderíamos adquirir durante a graduação. Nossos posteriores mestrados ou doutorados nada seriam frente ao que esses baluartes já haviam escrito.
 
Pois é, fui amalgamando decepção atrás de decepção à medida que lia algumas dessas publicações tidas como pedras fundamentais da minha área de formação, nada a ver com orientação política; mais era pelo conteúdo minguado das reflexões.
 
Depois de algum tempo, assim que o Brasil começou uma guinada abrupta ao conservadorismo, vivi para testemunhas alguns fenômenos curiosos nas redes sociais, pepetrados justamente por esses cidadãos, os baluartes das Letras brasileiras.
 
Uma ironiazinha tímida aqui, uma chargezinha ácida ali, e alguns textos mais repletos de críticas começaram a surgir. Eis que vejo, há uns quatro ou cinco dias, dois desses pilares da ética política das redes sociais (num oportunismo barato para criticar a indicação ministerial de um desafeto político) empregando o famoso “ridendo castigat mores” (rindo, castigam-se os costumes – numa livre tradução). Explico a situação: faziam troça do “avistamento” (a cena de Jesus na goiabeira, relatada por Damares). De modo educado, tentei explicar a todos que fizeram a piada que a situação motivadora da visão metafísica foi um caso de abuso infantil. Nada feito! Esses mesmos “gênios” da análise do discurso, da linguística textual, dos estudos de gênero, do preconceito linguístico etc. continuaram em suas posições, advogando que – independentemente do abuso – vangloriar-se de ter avistado Jesus era charlatanice barata para ludibriar aqueles que têm fé.
 
AVISO AQUI: EU NÃO CONCORDO COM 90% DAQUILO QUE O PRESIDENTE ELEITO DIZ, SEQUER SEI QUEM É A TAL DAMARES! DIGO ISSO ANTES DE VOCÊ DIGITAR “FASCISTA” LOGO ABAIXO DO TEXTO, NUMA REDUÇÃO ABSURDA.
 
Vamos aos fatos:
 
1 – Se Damares viu Jesus em uma goiabeira ou batendo um “flip” na rampa de skate, não faz a menor diferença. Experiências metafísticas são fenomênicas (individuais e singularmente particulares); isto é ELAS NÃO DEPENDEM DA SUA CRENÇA OU DA CRENÇA DO PROFESSOR DE QUALQUER PORCARIA QUE PENSE QUE ISSO É CHARLATANICE. Pode ser uma alucinação da grossa, é claro! Mas isso não dá o direito a quem quer que seja de fazer piada com tal situação! A sua crença não pode ser interveniente na crença / descrença do outro e vice-versa.
 
2 – O mais grave não é o “avistamento”, mas o motivo que gerou tal fato (?): a pessoa em questão sofreu abusos durante 4 anos. Ora, não é exatamente o que estamos a combater – os abusos, os desmandos, as desigualdades. Será que esses estandartes teóricos não leram, em seus manuais fantásticos, o significado do termo ALTERIDADE? Lembro-me de que – à epoca de Dilma – quando havia algum tipo de piada, havia verdadeiras palestras nas redes sociais sobre o quão errado é escarnecer uma figura feminina.
 
3 – Então, o problema está em Damares? Ou estaria no fato de ela ser evangélica? Ou no fato de ter sido apontada por Bolsonaro? Será que não há um grave problema de desonestidade intelectual nesses indivíduos que não suportam ver uma trasformação social (ainda que longe da ideal), que contrarie suas convições? Será que estamos a assistir um frenético show de birra dos teóricos que estavam acostumados ao mimo de uma audiência pouco questionadora?
 
4 – Ah, mas veja que estão dizendo que a ONG da Damares é acusada de… CALMA LÁ! Se ela cometeu algum crime, é mais certo que pague por tal! Ainda assim, NADA dá a você o direito de escarnecer a fé alheia e a abuso que tal pessoa sofreu. NADA!
 
5 – Mas ela usa isso para ludibriar aqueles que são inocentes e acreditam no que ela fala. Pois é, o mundo é assim! Dentro da universidade, conheço diversos teóricos que usam o próprio título para fazer militância política em vez de fomentar pesquisas e fazer o conhecimento sobre diversas áres crescer.
 
Enxergamos o tamanho da nossa crise moral quando percebemos que muitos dos ditos “iniciados” não conseguem ter o mínimo de decência ou respeito, ainda que clamem por justiça, elevando-se como os bastiões da ética e da honestidade.
 
A palavra é curta e simples, mas muito cara aos dias de hoje: #respeito
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Carne e salada

rucolasalat

Rafael estava andando pela Avenida Brasil quando percebeu sua imagem refletida no espelho do prédio comercial em que nunca havia reparado. Como é que eu fui ficar desse jeito? Não dá para saber o que foi que eu fiz. Ele sabia apenas que não estava contente e que não queria ficar daquele jeito.

Cento e vinte e três. Quando você conta mais de três dígitos na balança, meu nego, você já era, desapareceu! Ou melhor: apareceu, por causa daquela merda de virar ponto de referência na rua. Tá vendo aquele gordo? Então, é depois dele!

Uma semana depois do ocorrido e diversos bytes pesquisados, decidiu que nunca mais faria parte daquela seleta casta de placas humanas. Comprou um aplicativo de exercícios, duas bermudas de academia, um par de tênis de corrida e se meteu no propósito de mudança de shape. Começou a seguir tudo quando era filho da puta esguio ou rasgado que pudesse passar, ao menos, uma dica para ele moldar um pouco das suas formas. Estava resoluto de que aquele era o projeto verão! Só falou, na verdade, ele se matricular em uma aula de zumba ou em alguma dessas atividades que ocorrem nas praia à época de alta temporada. Sempre achei isso curioso: na aula de zumba ao ar livre na praia, há dois tipos de pessoa: as pessoas gordas de qualquer idade e as senhoras idosas, basicamente gente que não se exercita em nenhum momento da vida, mas quer ficar top dançando de havaiana com areia raspando no vão das coxas.

A gente bem sabe que ninguém perde um só quilo sem acertar o que vai da boca para dentro. O Rafa também sabia. Na verdade, eu já havia feito o seu doutorado em nutrição pelos cardápios que leu nos blogs de hipertrofia. Deve ter tirado o diploma na mesma universidade do Facebook que emite os doutorados em política, cuja tese se escreve por meio de memes. Foi lá e fez! Essa era a ideia que tinha em mente! Estava decidido: tomaria vergonha na cara e faria uma dieta decente, porque não estava nem um pouco a fim de ter que militar a favor da galera que fala sobre gordofobia.

O Rafa não tinha namorada, mas tinha um gosto refinado. Só seguia as novinhas mais caprichadas do Instagram. Só queria ver barriga chapada e bundinha empinada. Não aceitava menos do que isso. Se o braço fosse meio salsischado, dava um “unfollow” imediato. Aquela cena do início só surgiu como uma ideia algoz depois de tomar na lata uma resposta, “sai fora, gordo imundo”, de uma das novinhas que ele seguia. Com efeito, ele ficou chateado pela resposta; afinal, ele só havia mandado “que delícia essa rabeta” para a menina. As pessoas hoje estão muito sem paciência! Somou 1 com 2 e viu que o peso estava pesando na balança do namoro. Decidiu que não havia outro caminho.

Jogou fora Pringles, Doritos, chocolate, marshmallow, sucrilhos e todas as coisas que dão alegria à vida! Nunca mais vou comer essas porcarias! Sou foda! Sou um novo cara! Daqui para frente é dieta de verdade! NO PAIN, NO GAIN!

Na primeira metade da manhã, já estava sentindo que tinha um buraco no estômago. Comera crepioca com pasta de amendoim e tomara um café sem açúcar. Honestamente, café sem açúcar era o mesmo que tomar um murro bem no meio da boca – ele achava o fim. A cabeça estava pensando em o que poderia comer para aplacar a forma, que já era devastadora, sem sair da dietinha. Cada minuto o fazia lembrar que estava restringindo carboidratos. Almoçou uma omelete e um suco de porcaria nenhuma, porque não tinha açúcar. A travessia da tarde foi mais dura do que a travessia de um deserto: sem água, sem comida, num sofrimento infernal! Era ainda pior: havia coca-cola, havia comida, mas não podia comer bosta nenhuma! Olha a boca! A mãe já disse alguma vez a mãe! Não xinga a comida!

Foram três dias nesse mesmo sofrimento! Achou que precisasse de um médico, porque já estava ficando hipoglicêmico. Aí veio a primeira concessão: vou comer um snickers, daí – à noite – eu como carne e salada, sem qualquer carboidrato. Já compensa! Aí, Rafão, boa ideia!

No primeiro dia, foi um chocolate; no segundo, substituiu o almoço e o jantar tradicionais da dieta pela refeição-coringa: carne e salada. Isso para justificar um pacotinho de skittles, que valeu mais – naquele momento – do que qualquer curva que ele já tinha visto na Internet. A negociação só prosseguia dali para frente.

Depois de um mês: cento e vinte e sete! Caralho, que merda! Eu deve ter algum problema de tireoide que nem a tia (a tia Margarida falava sempre “tiroide”) para fazer dieta desse jeito e acabar engordando. Isso não é justo! Essas pessoas são todas umas mentirosas, porque não existe esse negócio de dieta! É tudo química que esses caras estão tomando! Comi só carne e salada por um mês e engordei! Ah, vá tomar banho!

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Kombucha e a Política

Kombucha

Dona Marlene resolveu que queria emagrecer. Do alto de seus 87 quilos, viu no programa da Ana Maria Braga um tal esquema de um tipo de bebida que era igualzinha ao refri santo de cada dia, mas com uma diferença substancial: não engordava. Aliás, tudo que não engorda é beatificado nos programas para as donas de casa atualmente. A Marlene adorava uma coquinha bem frescola, mas tinha certeza de que – se trocasse a coca por esse ou essa kombucha – perderia, pelo menos, uns 15 quilos – que nem a Cida da Mercearia 13, que (depois da bariátrica) só tomava kombucha e emagreceu esse tantão.

Bem, quem compartilhou a muda com a Marlene foi a Preta, que – na verdade – se chamava Cida era caucasiana, tinha 49 anos e 4 quilos a menos por causa da bebida “que era um espetáculo, menina”! A Marlene estava com mais pressa do que com vontade de seguir instrução. Ela ainda lembra que ouviu alguém dizendo que tinha que guardar bem essa bebida, para não estragar. Foi o que ela fez: deixou na garrafa de vidro num lugar estratégico da cozinha. Ela sentia que já estava perdendo as medidas só de fazer aquilo ali. “Mais credo! Quero ver, daqui umas três semanas, posso até comprar aquela blusinha que tá para vender lá no Doidão!”

Bem no início da manhã, antes do programa da Ana Maria, Marlene já estava acordando quando ouviu um som de estouro bem perto do quarto. Pensou que fosse alguém na casa. O medo já lhe atacava a consciência até entreolhar e notar que nenhuma porta estava arrombada. Aí só sobrou a intrigante interrogação sobre o que poderia ter acontecido. Pé por pé, foi investigar.

Ao entrar na cozinha, não achou parede branca (ainda que a cor de suas paredes fosse um misto de bege com velhice). A bendita garrafa de kombucha havia explodido e fez da cozinha um quadro de Pollock. Marlene nem sabia quem era esse cara, mas poderia vender as paredes com uma assinatura dele para ganhar uma grana.

Meu Deus do céu! Ela disse com as mãos na boca e arrastando as palavras com o filtro da incredulidade! Eu nem sei por onde começar a limpar! Chamou a Preta para mostrar o que tinha acontecido!

– Olha, eu não sabia que isso explodia desse jeito. Mas pega um pano que eu ajudo a limpar!

As duas se meteram à limpeza: começaram pela primeira parede, depois a segunda, a terceira, a geladeira, o fogão, os cacos de vidro do chão etc. Até hoje, você acha um pouco de kombucha na casa da Marlene, embora ela e a Preta tenham feito um serviço digno de nota. Toda vez em que rola um almoço de família na casa da Marlene, o Chico sempre tira onda, dizendo que a Marlene precisava de uns 20 centímetros a mais para limpar tudo.

E que lição a Marlene nos dá sobre a política? Bem, vamos lá:

  • A cozinha da Marlene é o Brasil.
  • Kombucha explodida representa a imensa quantidade de problemas sociais.
  • A Preta representa a união de forças para um objetivo em comum.
  • O Chico é o imbecil que sempre vai reparar a parte negativa das ações.

Em suma: ninguém resolve um problema social sozinho, bem como não se consegue extirpá-lo por completo. Uma iniciativa política no âmbito brasileiro possui um grupo pequeno de Pretas e um grupo gigante de Chicos – todos prontos a dizer que não resolveu ou a maximizar a mancha no canto do teto, apenas para puxar um assunto. Só foi possível deixar a cozinha mais apresentável, porque alguém tomou a decisão de começar a limpar uma parede de cada vez. Então, em sua próxima discussão política sobre os problemas sociais do Brasil, pare de dizer “isso não resolve o problema” e tome alguma medida pequena para ajudar, ou cale a boca de uma vez para não bancar o Chico.

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