Carne e salada

rucolasalat

Rafael estava andando pela Avenida Brasil quando percebeu sua imagem refletida no espelho do prédio comercial em que nunca havia reparado. Como é que eu fui ficar desse jeito? Não dá para saber o que foi que eu fiz. Ele sabia apenas que não estava contente e que não queria ficar daquele jeito.

Cento e vinte e três. Quando você conta mais de três dígitos na balança, meu nego, você já era, desapareceu! Ou melhor: apareceu, por causa daquela merda de virar ponto de referência na rua. Tá vendo aquele gordo? Então, é depois dele!

Uma semana depois do ocorrido e diversos bytes pesquisados, decidiu que nunca mais faria parte daquela seleta casta de placas humanas. Comprou um aplicativo de exercícios, duas bermudas de academia, um par de tênis de corrida e se meteu no propósito de mudança de shape. Começou a seguir tudo quando era filho da puta esguio ou rasgado que pudesse passar, ao menos, uma dica para ele moldar um pouco das suas formas. Estava resoluto de que aquele era o projeto verão! Só falou, na verdade, ele se matricular em uma aula de zumba ou em alguma dessas atividades que ocorrem nas praia à época de alta temporada. Sempre achei isso curioso: na aula de zumba ao ar livre na praia, há dois tipos de pessoa: as pessoas gordas de qualquer idade e as senhoras idosas, basicamente gente que não se exercita em nenhum momento da vida, mas quer ficar top dançando de havaiana com areia raspando no vão das coxas.

A gente bem sabe que ninguém perde um só quilo sem acertar o que vai da boca para dentro. O Rafa também sabia. Na verdade, eu já havia feito o seu doutorado em nutrição pelos cardápios que leu nos blogs de hipertrofia. Deve ter tirado o diploma na mesma universidade do Facebook que emite os doutorados em política, cuja tese se escreve por meio de memes. Foi lá e fez! Essa era a ideia que tinha em mente! Estava decidido: tomaria vergonha na cara e faria uma dieta decente, porque não estava nem um pouco a fim de ter que militar a favor da galera que fala sobre gordofobia.

O Rafa não tinha namorada, mas tinha um gosto refinado. Só seguia as novinhas mais caprichadas do Instagram. Só queria ver barriga chapada e bundinha empinada. Não aceitava menos do que isso. Se o braço fosse meio salsischado, dava um “unfollow” imediato. Aquela cena do início só surgiu como uma ideia algoz depois de tomar na lata uma resposta, “sai fora, gordo imundo”, de uma das novinhas que ele seguia. Com efeito, ele ficou chateado pela resposta; afinal, ele só havia mandado “que delícia essa rabeta” para a menina. As pessoas hoje estão muito sem paciência! Somou 1 com 2 e viu que o peso estava pesando na balança do namoro. Decidiu que não havia outro caminho.

Jogou fora Pringles, Doritos, chocolate, marshmallow, sucrilhos e todas as coisas que dão alegria à vida! Nunca mais vou comer essas porcarias! Sou foda! Sou um novo cara! Daqui para frente é dieta de verdade! NO PAIN, NO GAIN!

Na primeira metade da manhã, já estava sentindo que tinha um buraco no estômago. Comera crepioca com pasta de amendoim e tomara um café sem açúcar. Honestamente, café sem açúcar era o mesmo que tomar um murro bem no meio da boca – ele achava o fim. A cabeça estava pensando em o que poderia comer para aplacar a forma, que já era devastadora, sem sair da dietinha. Cada minuto o fazia lembrar que estava restringindo carboidratos. Almoçou uma omelete e um suco de porcaria nenhuma, porque não tinha açúcar. A travessia da tarde foi mais dura do que a travessia de um deserto: sem água, sem comida, num sofrimento infernal! Era ainda pior: havia coca-cola, havia comida, mas não podia comer bosta nenhuma! Olha a boca! A mãe já disse alguma vez a mãe! Não xinga a comida!

Foram três dias nesse mesmo sofrimento! Achou que precisasse de um médico, porque já estava ficando hipoglicêmico. Aí veio a primeira concessão: vou comer um snickers, daí – à noite – eu como carne e salada, sem qualquer carboidrato. Já compensa! Aí, Rafão, boa ideia!

No primeiro dia, foi um chocolate; no segundo, substituiu o almoço e o jantar tradicionais da dieta pela refeição-coringa: carne e salada. Isso para justificar um pacotinho de skittles, que valeu mais – naquele momento – do que qualquer curva que ele já tinha visto na Internet. A negociação só prosseguia dali para frente.

Depois de um mês: cento e vinte e sete! Caralho, que merda! Eu deve ter algum problema de tireoide que nem a tia (a tia Margarida falava sempre “tiroide”) para fazer dieta desse jeito e acabar engordando. Isso não é justo! Essas pessoas são todas umas mentirosas, porque não existe esse negócio de dieta! É tudo química que esses caras estão tomando! Comi só carne e salada por um mês e engordei! Ah, vá tomar banho!

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2 comentários em “Carne e salada

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