Suicídio e sociedade

Elementofalienation
Eu acabei de ler que Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, cometeu suicídio. Bem, essa notícia bombástica veio logo depois de outra notícia da mesma natureza: o suicídio de Chris Cornell – do Audioslave. Bem, mais do que a tristeza pela perda de um grande representante do mundo da música, essas notícias nos levam a refletir a respeito de tudo que tem acontecido no mundo em nossa conjuntura atual?
 
Às vezes, miramos – com certa inveja – a vida de nossos ídolos e pensamos que gostaríamos de estar ali: fazendo o que eles fazem, vivendo como eles vivem. Isso falamos, sem saber sequer como é um dia na vida dessas pessoas. Achamos que os ídolos são de rocha ou são etéreos e que nunca sofrerão um arranhão sequer. A realidade não é bem assim. Chester tinha seis filhos; Chris tinha esposa e filhos – todos os familiares ficam chorando a partida precoce desses dois grandes ícones, ao passo que os veículos midiáticos extraem a maior quantidade de “likes” das notícias.
 
Em uma corrida desesperada por reconhecimento, fama, holofotes e tapas nas costas, sacrificamos muito de nossa subjetividade. Fazemos isso enquanto rezamos secretamente para ter uma boa morte e – até lá – podermos aproveitar alguns instantes do que consideramos ser felicidade, mas que – na verdade – é apenas alegria. A exposição ao juízo de todos os especialistas em especialidades da Internet chega ao ponto de nos fazer esvair de quem somos em nome de personagens ridículos que não cansamos de interpretar em fotos de biquinho, sorrisos de boomerang, imagens seminuas com legenda bíblica. Tudo isso apenas demonstra como estamos desesperados para encontrar alguns sentido para nossa existência.
 
Eu não julgo alguém que tira a própria vida quando não suporta mais uma sociedade repleta de pessoas cretinas. Eu não julgo alguém que começa a sentir depois de se embotar por décadas com o gesso mentiroso do reconhecimento. Eu não sei quem será o próximo a tentar aplacar a dor da existência.
 
Penso que devemos tirar o pé do acelerador e colocá-lo no chão; que devemos tirar as mãos do celular e agarrar a mão da pessoa amada; que devemos tirar a cabeça do trabalho e transplantá-la para os nossos sonhos; que devemos abraçar nossos cães; que devemos brincar com nossos filhos; que devemos fazer aquelas viagens que nunca ousamos fazer; que devemos ler aqueles 80 livros que compramos sem um prazo para aproveitar; que devemos esquecer os títulos, as honrarias, os prazos, as querelas e fazer um cálculo para descobrir o quanto vivemos e o quanto existimos.
 
Não é porque se trata da morte de um cantor famoso ou de outro artista. Muitos anônimos podem ter feito a mesma coisa hoje sem serem noticiados, e a mudeza desse desespero é o que mais me impressiona nesse mundo em que vivemos. Ou apenas existimos?
 
(Pablo Jamilk)
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Um comentário em “Suicídio e sociedade

  1. Com o perdão da palavra, PHoda! Belíssimas palavras para um momento tão ‘punk’. Li sobre o assunto certo material de Émile Durkheim que dizia: “O suicídio é isso, uma forma de fugir de uma sociedade que não me aceita.

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