Ela nunca foi amada…

Durante a adolescência, ela sempre foi a menina mais bonita da escola. Não havia mesmo alguém para competir com toda aquela beleza estonteante que ela esbanjava em seus 15 anos. Aliás, a festa que comemorava esse natalício mais parecia uma celebração de Oscar, com direito a tapete vermelho e tudo mais.

Mesmo naquela época em que as pessoas não eram viciadas em corpos torneados e barrigas trincadas, chapadas ou chupadas, ela já fazia seus treinos diários, para alimentar uma compleição física invejável que, de fato, tinha. Corrida, alguns abdominais, alguns alongamentos já faziam parte de sua rotina desde cedo.

Algo como quatro ou cinco amigas era o  número com que podia contar, se levasse em consideração quem a acompanhava durante as transições da adolescência para a juventude. Não sabia se havia alguma confidente, a maioria era apenas uma companhia para ir à escola ou a alguma festinha que se descortinava nos fins de semana.

O caso mais curioso, a meu ver, é que ela nunca foi amada. Pois é, não parece estranho? A mais bela, a mais fantásticas das garotas nunca ter sido amada. No alto de seus 45 anos, ela descobriu isso. Nunca havia sido amada. Questionava-se a razão. Chegou a cogitar loucura própria, mas não era. Realmente, nunca havia sido algo de um amor.

Você talvez pense que não faça sentido isso que está lendo. Como isso é possível? Ela sempre teve todos os rapazes aos seus pés, todos eles eram vidrados na menina. Matariam – certamente matariam – para poder acariciar aqueles cabelos dourados, olhar para os fantásticos olhos verde-felicidade, tocar os lábios pequenos e brilhantes. Tudo sempre foi muito fácil para ela: estalava os dedos, e os garotos, os marmanjos entregavam o que tivessem nas mãos para lhe agradar.

Não foi diferente quando ficou adulta: flores, perfumes, vestidos, sapatos, carros, casas, até aviões lhe foram oferecidos para que entregasse um pouco de si para o candidato sortudo. Todos desejavam, todos a queriam, todos admiravam suas formas sinuosas, seu semblante de menina, sua pele macia e jovial, seu hálito fresco de menta selvagem!

Aos 45 anos, olhando-se no espelho da academia, ela descobriu que nunca foi amada.

(Pablo Jamilk)

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4 comentários em “Ela nunca foi amada…

  1. Engraçado como cada pessoa percebe uma situação . Como fui patinho feio na adolescência , aprendi cedo que beleza abre portas ,e que a feiúra só consegue, se meter o pé .
    Hoje, em paz como espelho,sou capaz de compreender a verdade que o texto nos revela.
    Ainda assim ,acho que essa tal moça,se divertiu para caramba …rs

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